A Natureza do Trans-Humanismo e Demais Formas de Futurismo

Artigo muito interessante sobre Transhumanismo e suas formas somadas ao futurismo.

O artigo é um pouco exagerado em alguns pontos, mas o autor me parece ser mais ligado ao Extropianismo, que é uma forma de Transhumanismo mais amplificada, ou seja, levando o Transhumanismo um pouco mais ao extremo.

Mas, o artigo consegue passar, em poucas linhas, todas as idéias principais do Transhumanismo e o que o Transhumanista espera do futuro.

Eu, pessoalmente, não espero uma sociedade tão perfeita o quanto o texto mostra. Só espero, que, com a ajuda da tecnologia, consigamos chegar a um patamar muito interessante, onde consigamos uma sociedade mais justa e ainda, muito melhor para cada ser humano.

http://www.ipetrans.hpg.com.br/transpolemistas.htm

Atenção transpolemistas:
Este artigo é um prato cheio.Alta Tecnologia para Matrix está ao alcance dos cientistas …
Grande abraço
Eduardo Cezimbra

A Natureza do Trans-Humanismo e Demais Formas de Futurismo

O que eu pretendo expor neste artigo é a plausibilidade das atuais correntes de  pensamento inerentes ao trans-humanismo e uma visão do futuro evolucionário da espécie humana tendo em vista estes avanços.

Durante milhares de anos, desde nossa “hominização” inicial, temos deixado a evolução, direcionadapela seleção natural, moldar nossa sociedade e individualidade, tanto em termos genotípicos quanto fenotípicos.

Entretanto, agora que atingimos o início do século 21, estamos aptos a escolhermos a direção de nossa própria evolução, e melhorar drasticamente nossas formas orgânicas limitadas. Isto pode soar como ficção científica, mas está totalmente de acordo com a opinião de muitos filósofos da ciência, cientistas
computacionais e físicos (Bostrom 1998, Bostrom 2001, Moravec 1998, Drexler 1999).

Dentre os fatores que nos permitem este tipo de especulação e inferência os dois maiores são o progresso na teoria concernente à nanotecnologia molecular aplicada e ao aumento polinomial da capacidade computacional (segundo a lei de Moore).

Primeiramente veremos o impacto da nanotecnologia. A idéia básica inerente à nanotecnologia foi introduzida por Richard Feynman em 1959 (Feynman 1959), mas sua forma moderna, e rigorosamente científica pertence à década de 80, sendo devida especialmente a Eric Drexler.

Em seu livro de 1992, Drexler define a framework necessária para a construção de assemblers(montadores) capazes de realizar as tarefas exigidas pela nanotecnologia. Mas o que realmente significa a nanotecnologia?

É uma tecnologia supostamente capaz de manipular átomos individuais, fabricando itens com precisão molecular, utilizando processos pouco dispendiosos e ambientalmente seguros. Como foi demonstrado por Drexler, a nanotecnologia não fere nenhum princípio da química, e é a forma ideal de
industrialização. Em princípio, os próprios assemblers tornar-se-iam extremamente baratos, pois poderiam ser capazes de se auto-replicarem (bastaria programá-los para fazerem cópias deles mesmos).

Qualquer tipo de produção também seria barato, pois a única matéria prima necessária seriam átomos livres. Isto tornaria os produtos atuais extremamente baratos e nos permitiria um novo nível de produção, envolvendo computadores do tamanho de uma célula, e robôs capazes de nos operarem diretamente a nível molecular. As implicações disto para a humanidade em geral são  impressionantes.

Todo o nosso sistema econômico atual, baseado na escassez de recursos seria revisto. Nossas expectativas em termos de uma curva de produção aumentariam exponencialmente e uma nova era de componentes inteligentes, programáveis e baratos seria iniciada. É um passo fundamental para nossa transformação em pós-humanos.

Seríamos capazes de manipular a natureza em um nível jamais imaginado, alterando nossa maneira de viver de forma drástica. E o mais impressionante disto tudo é que esta realidade está mais próxima do que se imagina.

Segundo algumas estimativas, o primeiro assembler será construído em torno de 2017. É difícil imaginar o verdadeiro impacto que este avanço terá sobre a humanidade. Por ser uma tecnologia com aplicações tão diversas e um potencial quase ilimitado é imperativo que nos preocupemos com estas questões agora, como é atualmente feito por instituições como o  Foresight Institute.

Obviamente é possível que este tipo de tecnologia seja utilizado para finalidades bélicas e devemos estar preparados para esta possibilidade. Voltaremos à possibilidade do mau uso da tecnologia em breve, pois é um assunto de suma importância e merece maiores detalhes. Agora voltaremos nossa atenção ao aumento da capacidade computacional.

Este é um desenvolvimento constante, e com um potencial tão grande quanto a nanotecnologia.

Segundo a lei de Moore, a capacidade de processamento é duplicada a cada dezoito meses. Se continuarmos este progresso teremos computadores tão rápidos quanto o cérebro humano em menos de trinta anos.

As conseqüências mais uma vez são tremendamente significativas para toda a humanidade. A principal aplicação para este tipo de capacidade computacional é a criação de inteligências artificiais totalmente funcionais. Isto significa que podemos prever a existência de inteligências artificiais na primeira metade deste século, iniciando um novo paradigma intelectual para nossa espécie.

Essas inteligências artificiais são o que Nick Bostrom denomina “superinteligências”, pois obviamente elas superariam por diversas ordens de grandeza as capacidades computacionais do cérebro humano orgânico, e seus algoritmos genéticos extremamente desenvolvidos, baseados em redes neurais
orgânicas superariam nossa capacidade de processamento, armazenamento e aprendizado, suplantando a espécie humana, estabelecendo uma supremacia virtual e física, tendo um tempo de vida subjetivo excessivamente maior do que o da humanidade em geral (em função de sua capacidade de processamento progressivamente expandida) e eventualmente eles nos substituiriam de forma
definitiva, sendo uma nova sociedade, pós-humana.

Talvez os pós-humanos do futuro próximo sejam Inteligências Artificiais puras, evoluídas a partir de algoritmos genéticos computacionais, ou talvez sejam seres humanos que evoluíram progressivamente incorporando melhoramentos biônicos a seus cérebros e demais centros cognitivos de forma a se tornarem seres radicalmente diferentes de sua concepção original. Seja qual for a forma de vida
inteligente dominante em um futuro próximo, as inteligências artificiais desempenharão um papel crucial em sua formação.

Nossas faculdades epistêmicas serão elevadas polinomialmente, de maneira diretamente proporcional ao aumento da capacidade computacional. Tais aumentos nas habilidades cognitivas e físicas computacionais na psique humana (ou não-humana) levarão a desenvolvimentos ainda mais rápidos e derradeiros na tecnologia da inteligência artificial (pois cérebros mais avançados criarão
superinteligências ainda mais velozes) o que por sua vez acelerará ainda mais o progresso e assim por diante, ad infinitum. No nível mais baixo deste espectro nós teremos tecnologias voltadas ao consumidor tais quais computadores “vestíveis”, implantes biônicos inteligentes e coisas deste gênero.

Em um lado mais sofisticado teremos realidades virtuais totalmente realistas, indistinguíveis da realidade física, e implantes neurais capazes de induzir estados hipnagógicos e nos dar uma imersão total neste tipo de realidade virtual. Podemos ver claramente que com o advento da superinteligência as mentes humanas ficarão ultrapassadas, e darão lugar a estas inteligências artificiais ou cérebros orgânicos artificialmente amplificados.

Um outro conceito introduzido neste contexto é o dos uploads. Um upload seria uma consciência humana transferida inteiramente para um computador, com um poder de processamento muito maior, e uma estrutura neural subjacente muito mais eficiente, dando uma chance aos humanos de se igualarem às inteligências artificiais nesta corrida evolucionária contida em uma espiral positiva de
desenvolvimento, que pode nos levar até mesmo à condição definida como “singularidade”, onde novos desenvolvimentos aconteceriam de forma cada vez mais rápida, culminando em uma sociedade fundamentalmente diferente, que nem mesmo poderia ser considerada “humana”.

O emprego destas duas tecnologias em conjunto, a nanotecnologia e a capacidade computacional expandida, vai modificar literalmente a cara do planeta, e permitir até mesmo a colonização do espaço.

Uma das possibilidades abertas por esta sinergia é a capacidade de reviver pessoas congeladas utilizando-se técnicas de criogenia. Pessoas congeladas criogenicamente teriam o conteúdo de seus cérebros transferidos para uploads e viveriam eternamente como entidades cibernéticas. E o processo inverso também poderia ser aperfeiçoado (dado o tempo necessário), e uploads poderiam ser
transferidos para corpos orgânicos (ou semi-orgânicos), criando efetivamente a vida eterna.

Desta forma o sonho de Freeman Dyson em relação à continuidade da vida poderia ser efetivamente implementado, levando a humanidade a um novo nível de consciência global. Mas obviamente podemos imaginar muitos usos bélicos para este tipo de tecnologia, e é por isso que devemos nos preocupar com estas questões agora, antes que seja tarde demais. Não podemos mais tentar impedir o
progresso, e a desinformação só piora a situação.

Devemos ponderar cuidadosamente todos os fatores envolvidos, evoluirmos nossa capacidade cooperativa até finalmente atingirmos uma situação que permita o desenvolvimento destas tecnologias, regulamentado por organismos internacionais (como a WTA ou o Extropy Institute), de forma a impedir os abusos provenientes do mau uso destas tecnologias.

Com o progresso da ciência e uma necessidade de cooperação cada vez maior talvez tenhamos finalmente a capacidade de transcender as fronteiras nacionais, nos unificando como uma raça voltada para o progresso e o bem estar geral, ou pereceremos na tentativa.

O que não podemos é tentar parar todo o tipo de progresso partindo da premissa de que a tecnologia é fundamentalmente ruim, pois se não houvesse a tecnologia muitos de nós (inclusive muitos dos que atualmente reclamam da tecnologia) não estariam aqui. A tecnologia não resolve todos os problemas, mas nos dá as ferramentas necessárias para resolvê-los, e precisamos evoluir para um novo modelo econômico, tecnológico e social, pois a situação atual será insustentável a longo prazo (estamos esgotando os recursos do planeta, explorando os pobres, destruindo o meio ambiente, nada disto será necessário dentro das metas do trans-humanismo).

Logo se presume que o desenvolvimento de todo tipo de avanço acompanhará medidas visando a prevenção de abusos e reduzindo o risco de uma extinção súbita (à la John Leslie).

Este é o verdadeiro objetivo do trans-humanismo, melhorar nossa qualidade de vida dramaticamente e nos abrir possibilidades fantásticas. E finalmente eu gostaria de apresentar uma visão do futuro em uma sociedade transitória, rumo ao pós-humanismo, incorporando gradativamente novas tecnologias e avanços, transformando nós mesmos e toda a humanidade no processo.

Este estágio de desenvolvimento hipotético que eu apresentarei encontra-se aproximadamente no ano de 2100, o que é uma estimativa um tanto conservadora, segundo os padrões atuais. Esta sociedade seria inteiramente composta por superinteligências, capazes de realizar bilhões de operações por
segundo, computar um número arbitrariamente grande de variáveis, e capaz de multitarefa preemptiva.

Haveria duas realidades principais, uma realidade física e uma realidade virtual.

Nossas mentes viveriam primordialmente em uma realidade virtual, modelada de acordo com nossa vontade, podendo até mesmo violar as leis da física em seus axiomas internos, pois ela seria inteiramente virtual.

Nossos centros de prazer no cérebro seriam estimulados de forma muito mais satisfatória, dando ao termo “sexo virtual” um significado totalmente novo. Os prazeres humanos são meramente estímulos de determinadas áreas do cérebro, e uma rede neural suficientemente avançada poderia realizar este
tipo de estímulo de forma muito mais eficiente e satisfatória, além de atingir novos conceitos de “satisfação”.

Nossos corpos físicos tornar-se-iam praticamente obsoletos, sendo mantidos somente por alguns conservadores (entretanto todos teriam a liberdade de escolha), pois a realidade virtual prontamente ajustável seria muito mais desejável. A reprodução seria primariamente assexuada, resultante da
clonagem ou criação de novos algoritmos computacionais.

E como ficou implícito no trecho referente a nossos corpos físicos, a maior parte da sociedade seria realmente composta por uploads, sendo somente um padrão de informações gravados em um dispositivo de armazenagem ótica. A humanidade finalmente se expandiria para conquistar o espaço, colonizando todo o sistema solar, modificando planetas e asteróides (utilizando técnicas baratas com a nanotecnologia) para que eles sejam capazes de suportar a vida.
Talvez até mesmo pudéssemos empreender a monumental tarefa de criar uma Esfera de Dyson II, aproveitando plenamente o output energético do sol.
Poderíamos produzir energia através das hipotéticas máquinas de Von Neuman (neste nível tecnológico muitas possibilidades se abrem), e sintetizar todos os bens essenciais, eliminando o problema da escassez dos bens econômicos. Finalmente eliminaríamos toda a necessidade da dispendiosa vaidade humana, pois não haveria mais necessidade de corpos físicos atraentes, nosso único padrão de
comparação seria a capacidade intelectual.

A integração entre a sociedade seria completa, e viveríamos de forma tão radicalmente diferente que nem mesmo podemos fazer inferências realistas neste ponto, pois uma verdadeira sociedade pós-humana teria motivações e desejos totalmente diferentes de nossas próprias motivações e desejos.

A colonização do espaço seria uma realidade cada vez mais predominante, e um dia poderíamos vir a conquistar grande parte da galáxia (considerando-se que não haja outras raças superdesenvolvidas nas imediações).

A morte existiria somente com uma opção, não fazendo mais parte de nosso cotidiano. As doenças também seriam superadas, e todo este tipo de preocupação desapareceria.

A informação fluiria livremente, em canais de banda larga numa rede de comunicação global, levando a uma espiral positiva de desenvolvimentos.
Ultimo facie podemos ver que será um mundo onde a religião e as superstições serão definitivamente abandonadas.

Não há quaisquer evidências para a existência de forças sobrenaturais ou de um suposto criador divino.

O método científico, embora não seja perfeito fornece a estrutura para descobertas dedutivas e indutivas, e o pensamento racional será aceito como a única forma de se obter conhecimento, eliminando todas as armadilhas introduzidas pela religião e pelas repulsivas doutrinas da Nova Era, valorizando o intelecto humano, e nosso potencial inerente, para que possamos continuar nosso
progresso indefinidamente.

Um mundo onde mentes superevoluídas, máquinas autoconscientes, derivadas de mentes humanas ou algoritmos por eles desenvolvidos finalmente estariam livres dos grilhões impostos por nossa forma física e limitações psico-farmacológicas.

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